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Especial: a realidade do futebol brasileiro

Futebol Brasileiro: o calendário, baixos salários e desemprego

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Arte: Christian Castilho – Fonte: CBF

Com 722 clubes filiados, considerados grandes tem a agenda superlotada, enquanto os menores sofrem para ter jogos competitivos para disputar durante toda a temporada

 Entraves como o calendário esportivo, que faz com que muitos profissionais trabalhem de forma sazonal ou por temporadas, questões econômicas que afastam o público cativo dos estádios e os baixo salários também fazem parte da rotina do outro lado do futebol brasileiro.

Enquanto os clubes considerados grandes tem jogos até demais, os pequenos sofrem com a falta dos mesmos. Um problema grave e de conhecimento de todos é o calendário do futebol brasileiro.

Basicamente ele é resumido em cerca de 25 dias de pré-temporada, 18 datas para os Estaduais (cerca de três meses), 21 datas para a Copa do Brasil, 38 datas para o Campeonato Brasileiro Série A e B, 24 datas para a Série C; 16 datas para a Série D.

Tais datas são definidas pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), e podem estar sujeitas à influência das emissoras de televisão, que farão a transmissão e que, por sua vez, avaliam com um olhar voltado para atender expectativas de público ou audiência e patrocinadores.

Calendário nacional do futebol brasileiro em 2018 Foto: Reprodução/CBF

 

Para as equipes da Série A e B, tem-se um calendário considerado extenso, com jogos praticamente duas vezes por semana. Na Série C, as equipes também conseguem ter um calendário melhor, já que a competição conta com 24 datas e é disputada apenas uma vez por semana, um bom período de jogos e de recuperação para os atletas. Porém, é na Série D que as coisas começam a se complicar, já que metade das equipes são eliminadas após apenas seis partidas.

Levando em conta que apenas 60 equipes das 722 registradas na CBF tem um calendário garantido para o ano todo, diversos profissionais vivem com o drama do desemprego, justamente pela falta de competições no segundo semestre.

A grande maioria dos jogadores tem garantido apenas os contratos para os Estaduais, que não passam de quatro meses de disputa. Quem se destaca ainda consegue um contrato com uma nova equipe, mas o restante acaba sendo obrigado a fazer os famosos “bicos”, jogam no futebol amador, ou até mesmo no futebol profissional, nas Copas Regionais, mas na maioria dos casos os atletas atuam até sem salários, apenas para uma vitrine, visando um contrato para a temporada seguinte com alguma equipe.

Ídolo como jogador, Fausto assumiu o Linense como gerente de futebol após pendurar as chuteiras e sentiu na pele como é difícil manter uma equipe menor no Brasil

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Foto: José Luis Silva

Quem já esteve em campo e à frente de um clube também consegue esboçar sugestões para esta questão. “O ideal seria ter um calendário anual, mas a gente sabe que envolve muita coisa, patrocínio, receita, e isso afeta todo mundo. Menos de 10% dos clubes tem calendário anual, enquanto o Brasil seguir nessa forma, vai ser difícil crescer”, destaca o ex-gerente de futebol e ídolo do Clube Atlético Linense, Fausto Momente.

“O Brasil vai se sustentar no futebol porque o talento sempre vai existir, isso não vai morrer nunca. Sempre vai ter uma seleção forte, bons jogadores, mas que vão jogar pelo mundo, não aqui no Brasil, os que se destacarem as equipes de fora vão levar, isso é fato e enquanto a gente não tiver uma organização fora de campo para garantir que o atleta vai ter 1 ano de contrato, realmente receber mensalmente, isso vai acontecer. Quantos clubes pagam realmente em dia o funcionário, isso dificulta bastante o desenvolvimento do futebol no Brasil”, completou o ex-gerente de futebol do Linense.

 

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Como jogador, Fausto foi um dos grandes ídolos do Linense (Foto: divulgação/CA Linense)

 

Profissionais que acompanham a dinâmica do futebol também percebem essas nuances. O jornalista Zuba Ortiz, que vivenciou de perto o futebol paulista, paranaense e baiano, fala sobre as Copas Estaduais, competição que alguns estados adotam para movimentar o segundo semestre. A Federação Paulista é a menos desorganizada, e mesmo assim está longe de ser organizada. É ridículo um calendário de Copa Paulista”, diz. “É ridículo bater um calendário de Copa Paulista com o Sub-20 por exemplo, e não poder usar os moleques. O ano passado mesmo batia calendário”, completa.

“Na Bahia é pior. Faz três anos que não tem tipo uma Copa Paulista lá, os times morrem com três meses de vida e não jogam mais nada. No Paranaense teve em alguns anos, mas também nunca teve uma atenção de verdade. Em São Paulo segue, pois ainda rende um pouco de dinheiro para a federação”, diz o jornalista.

Jornalista Zuba Ortiz em entrevista (Foto:Caroline Rodrigues)

 

Para uma melhoria nesse cenário, Zuba Ortiz sugere uma solução para movimentar o calendário nacional das equipes e melhorar o nível de competitividade no segundo semestre. A Série D deveria ser regionalizada, e no lugar das copas ter uma Série D regionalizada por estado. Assim você faz um calendário maior, unifica os times por estado que não estão na Série A, B e C, e consegue fazer jogos para o ano todo, prendendo o torcedor e dando uma sobrevida aos clubes. Apesar do dinheiro ser menor, você consegue manter. Seria uma saída mais viável do que manter por exemplo uma Copa Paulista, finaliza o jornalista.

A realidade salarial

A questão salarial é outro aspecto que mostra as discrepâncias do futebol brasileiro. Diferente das fortunas e grandes negociações que envolvem os jogadores da elite profissional brasileira, como os craques Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Adriano, entre tantos talentos que já vestiram a camisa amarelinha, a maioria dos atletas recebem em torno de um salário mínimo.

Segundo o último relatório da entidade máxima do futebol brasileiro, a CBF, que constam informações salariais e foram divulgado em 2016, 82,40% dos atletas no Brasil recebem até mil reais; 13,68% recebem de R$ 1.001,00 a 5 mil reais; e apenas 3,92% recebem mais que R$ 5.001,00 mensais.

Há controvérsias. Um levantamento feito pelo site especializado Salario.com.br no período de  fevereiro a setembro de 2018, com um total de 9527 salários, com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados,  do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), aponta que um Jogador de Futebol ganha em média R$ 4.128,36 no mercado de trabalho brasileiro para uma jornada de trabalho de 43 horas semanais.  Os dados revelam ainda que a faixa salarial do Jogador de Futebol – Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)  377110 – fica entre R$ 2.931,13 e R$ 9.558,89, levando em conta o piso salarial e o teto salarial médio de profissionais contratados com carteira assinada em regime CLT a nível nacional. Os dados foram informados pelas empresas ao Ministério do Trabalho.

Fausto compara as dificuldades encontradas no futebol com outras profissões. “O brasileiro é apaixonado por futebol, mas em outras áreas também temos dificuldades. A gente vê artistas, cantores, quantos que realmente ganham muito dinheiro e quantos outros recebem pouco. O futebol dá muito destaque, mas também temos cantores, atores, muitos batalhando em peças de teatros pequenas, é uma minoria que ganha salários astronômicos, assim como no futebol”, disse.

Público cativo

Outro ponto relembrado por Fausto é a questão do torcedor. Apesar do futebol ser uma paixão nacional, as arquibancadas nem sempre estão cheias, muito pela situação econômica do país, como comentou o ex-jogador.

 

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Fausto (centro) ainda como gerente de futebol do Linense (Foto: José Luis Silva)

“Hoje o futebol está muito centrado nas grandes equipes. Um clube como o Linense deveria ter um estádio com jogos para 4, 5 mil pessoas, mas não estamos conseguindo. E não é só o Linense. Jogamos em Porto Alegre contra o São José, jogo do acesso e tinham 1300 pessoas, a maioria família, parente dos diretores, atletas, então um jogo valendo acesso e estava assim. Isso eu falo no Sul, Sudeste. Lá no Nordeste ainda jogam para 15, 18 mil pessoas”, diz Fausto.

“Para cá que estamos com dificuldade de fazer receita com o torcedor, de irem ao campo, comprarem coisas do clube, acho que esse é o principal problema. Taxa das federações, essas coisas, sempre vão existir, e não afeta diretamente as finanças. Atrapalha, claro, mas se a gente jogasse para mais gente, cobrando aí 20 reais que é justo, conseguiríamos se sair melhor. Mas claro, entendemos também que o país está quebrado, para uma família ir no campo e gastar 60, 80 reais em um jogo fica pesado. São muitas coisas, o buraco é mais em baixo”, afirma Fausto Momente.

Um grande exemplo dessa situação foi a partida entre Linense e Maringá, válida pela 2ª rodada do Campeonato Brasileiro Série D, onde o Elefante venceu por 1 a 0 dentro de campo, mas teve um prejuízo de quase dez mil reais, mesmo sendo o mandante.  No Campeonato Paulista a situação foi a mesma, com exceção dos jogos em casa contras os considerados grandes.

Sem jogos, atletas vivem o drama do desemprego, sofrem com a inadimplência nos salários e muitos decidem disputar competições não federadas como uma vitrine

Segundo dados da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol  (Fenapaf) em reportagem publicada Estadão, em 08 de outubro de 2017, o Brasil teve, em 2017, 18 mil atletas registrados profissionalmente, porém, apenas 30%  empregados em algum clube, sendo este um dos maiores dramas da carreira de um jogador.

O atacante Lucas Ferreira tem 27 anos, e é um atleta profissional de futebol que se destacou em 2018 vestindo a camisa do Mogi Mirim no Campeonato Brasileiro Série D. Em sua carreira, o jogador que atua como atacante passou por equipes de Santa Catarina em 2014, 2016 e 2017, antes de chegar no clube paulista nesta temporada.

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Lucas Ferreira em equipe Catarinense (Foto: Arquivo pessoal/Lucas Ferreira)

Em 2015, Lucas Ferreira viveu um drama que muitos atletas atravessam na profissão: o desemprego. Sem clube, o jogador ficou sem poder fazer o que mais gosta, e então contou com uma ajuda especial de Fabiano Gadelha, ex-jogador do Marília, Ponte Preta, entre outras equipes. Foi um dos piores momentos da minha carreira, eu não consegui jogar, fiquei sem clube. Foi aí que o Fabiano Gadelha me ajudou, se colocou à disposição e me treinou o ano inteiro, isso me ajudou muito a poder voltar”, relembra o jogador.

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Atacante treinando com Fabiano Gadelha (Foto: Arquivo pessoal/Lucas Ferreira)

Porém, no futebol brasileiro o contrato assinado com uma equipe não garante o recebimento do salário, e Lucas Ferreira também sofreu com os atrasos no Mogi Mirim, mesmo com a equipe disputando uma competição de nível nacional.

Infelizmente tivemos coisas que não deram certo e muitos pais de família que tinham lá passavam por situações complicadas, com a mulher ligando, falando que o filho precisava disso, daquilo… É complicado. Se o clube não paga, deveria fechar, pois tem o pai de família trabalhando ali que precisa do dinheiro, é dali o ganha pão dele”, diz Lucas Ferreira. Sem contar que muita gente acha que por estar jogando estamos ganhando 50 mil por mês, mas não é assim, isso acontece muito por causa da mídia. As pessoas julgam muito sem sabecompleta.

Mesmo se destacando no Mogi Mirim, Lucas Ferreira ficou sem clube para a continuidade da temporada, como milhares de atletas no país.

“O calendário favorece o desemprego, pois é um tiro muito curto, falando de Série D. O calendário deveria ser estendido, mais longo em competições como a Série D, é algo que a CBF poderia pensar um pouco mais para ajudar na sequência de jogos e assim a gente poder mostrar o nosso trabalho”, disse o atacante, que completou.

Nesse período sem clube eu estou me preparando bastante, treinando, pois sei que no final do ano vai surgir oportunidade para o Paulista. Estou trabalhando com o Gadelha e o Osmar (Cambalhota), que me ajudam a se preparar para quando tiver a oportunidade, corresponder em alto nível”, completou.

Lucas e Osmar
Lucas Ferreira e Osmar Cambalhota no Mogi Mirim (Foto: Arquivo pessoal/Lucas Ferreira)

Para o restante da sua carreira, Lucas Ferreira ainda sonha com voos mais altos, e o primeiro passo é se empregar e mostrar mais uma vez o seu futebol. Para o futuro é aguardar. Minha expectativa era para a Copa Paulista, mas como teve a Copa do Mundo teve um foco maior lá, e querendo ou não ficamos um pouco esquecidos. O meu plano é se empregar para o Estadual do ano que vem e conseguir uma sequência boa em 2019, finalizou o jogador.

 

Wesley Henrique vê uma oportunidade de aparecer no Lins FC

Clubes
Wesley Henrique sonha com um recomeço através da Taça Paulista (Foto: Divulgação Lins FC)

O drama do desemprego dos atletas profissionais no Brasil cresce consideravelmente no segundo semestre deste ano, quando apenas 60 dos 722 clubes registrados no Brasil tem um calendário nacional adequado. A saída para os jogadores muitas vezes é aceitar atuar em competições menores e até mesmo sem salários, apenas para usar as partidas como uma vitrine, na esperança de aparecer no mercado e conseguir um contrato melhor para a temporada seguinte.

Esse foi o caminho do atleta Wesley Henrique. Com passagens por Cambé-PR e Clube Atlético Assisense-SP, o jogador de 23 anos acertou com o Lins FC para a disputa da Taça Paulista, uma competição não federada a FPF, mas que muitos profissionais utilizam como uma forma de aparecer no segundo semestre.

“É uma vitrine para jovens que estão surgindo e, querendo ou não, várias pessoas estão te vendo, para os mais novos é uma boa vitrine, sempre temos que estar jogando, disputando alguma coisa”, diz Wesley Henrique, que já disputou a competição pelo Associação Atlética São Bento-SP.

“Essa oportunidade é para poder colocar o meu nome na vitrine novamente, e poder buscar um grande clube no cenário nacional ou até Europeu.  É uma excelente vitrine (Taça Paulista) para qualquer jogador, e para mim não será diferente”, completa o jogador, que é natural de Marília, cerca de 70km de Lins.

De acordo com o Lance!, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) realizou um estudo para a Secretaria Nacional de Futebol do Ministério do Esporte, onde foi apontado que se todos os clubes do país que jogam apenas quatro meses por temporada atuassem pelo ano todo, teríamos 25 mil novos empregos e R$ 600 milhões por ano no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.

Questionada sobre os temas da reportagem, a CBF não se pronunciou.

Wesley Contiero (948 Posts)

Jornalista, 24 anos, natural de Lins, Interior de São Paulo.


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