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Especial: a realidade do futebol brasileiro

Futebol amador: renda extra e uma saída para o desemprego

W. França Terrão

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Foto: Arquivo pessoal/Wellington França

Atletas amadores e profissionais conseguem conquistar uma “grana extra” na várzea, que muitas vezes se torna até o único ganho no mês

Aqueles que não conseguem realizar o sonho de se tornar profissional, acabam praticando o futebol de forma amadora. A categoria conhecida popularmente pelo substantivo várzea, que se refere a algo informal, sem apoio ou estrutura e de baixo nível, acaba também por revelar muitos atletas. Geralmente, as partidas acabam sendo realizadas em campos de bairros, vilas e etc., locais bem diferentes dos grandes estádios.

Esse foi o destino de Matheus Possidonio. Natural de Ipaussu, no interior de São Paulo, o estudante de fisioterapia teve passagens pelas categorias de base do São Caetano e do Red Bull Brasil, mas foi no futebol amador que sempre se destacou, desde os 14 anos, quando disputou a primeira competição adulta. “Pintou uma oportunidade de disputar um Municipal em Ipaussu, onde fomos campeões e eu fui vice-artilheiro com 12 gols. A partir daí a turma começou a me olhar com novos olhos, pois antes eu era apenas o filho do treinador de Ipaussu (risos). Depois que disputei esse campeonato com idade livre, as pessoas começaram a me chamar para jogar para fora, contra adultos”.

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Matheus Possidonio nas categorias de base do Red Bull Brasil (Foto: Arquivo pessoal/Matheus Possidonio)

 

Matheus relembra que no ano seguinte jogou a sua primeira competição de maior nome, a Copa TV TEM de Futsal, evento promovido por uma afiliada da Rede Globo de Televisão na região. “Foi um feito muito grande para mim. Na época não queriam deixar me inscrever pela idade, mas eu consegui, e me orgulho de ter disputado um campeonato que conta com muitos profissionais mesmo com apenas 15 anos”, disse.

Atualmente com 22 anos, Matheus Possidonio é “figurinha carimbada” nas competições amadoras, e inclusive consegue fazer uma renda extra com os jogos. “Já cheguei a receber 300 reais e mais um bônus de 50 por gol e 25 por assistência para jogar uma semifinal. Mas eu não gosto muito de cobrar, inclusive quando eu jogo para o time da minha cidade, acabo nem cobrando, pelo contrário, ainda ajudo no transporte e nas despesas. Mas as vezes necessitamos de um dinheiro extra, e recentemente até disputei um campeonato no Paraná, onde eu recebi 100 reais por jogo mais o combustível gasto no transporte. Conforme passamos de fase, o dinheiro foi aumentando. Chegamos na final e conseguimos o título, e só depois que percebi que eles gastaram 2.500 reais comigo”, diz.

“Mas eu também não uso de má fé, eu não cobro caro. Sempre que tenho amigos no time jogo tranquilo, nem pego dinheiro, pela amizade mesmo. Agora se é um time que não conheço a galera, e preciso de uma renda extra, acabo recebendo. Eu mesmo não coloco um valor, pergunto quanto o treinador pode pagar e então combinamos, não tiro proveito disso”, completa.

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Mesmo com apenas 15 anos, Matheus jogou uma Copa TV TEM (Foto: Arquivo pessoal/Matheus Possidonio)

 

Apesar de gostar muito de jogar futebol e procurar sempre estar em campo, Matheus também tem as suas obrigações de estudante, o que o impede de disputar mais partidas. “Já tive mais vezes de equipes virem atrás de mim para jogar, mas como eu também estudo, acabo recusando os jogos que são no meio de semana. Já nos finais de semana, sempre que tem estou indo, preciso de um extra (risos)”, conta Matheus Possidonio.

 

“Salário garantido?”

No futebol amador também é comum encontrar profissionais garantindo o seu salário no período de desemprego, o que ocorre com Wellington França, um atleta de 24 anos que já passou pelo Atlético Paulistano, Grecal-PR, Itabaiana, Humaitá-AC, entre outras equipes, e que atualmente defende o Corinthians de Presidente Prudente. Nos clubes que passou, o volante sempre encontrou muitas dificuldades extracampo. “Já cheguei a ficar sem receber salários. Jogar longe de casa, distante da família já é ruim, sem receber então, é pior ainda. Temos contas para pagar, o futebol é nosso ganha pão, onde tiro o meu sustento, então se jogo e não recebo fica complicado, acabamos dependendo da ajuda de familiares para conseguir comprar alguma coisa”, conta.

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Wellington França antes de mais uma partida na várzea (Foto: Arquivo pessoal/Wellington França)

 

A saída para Wellington França e milhares de jogadores muitas vezes é a várzea, onde realmente o dinheiro combinado é pago aos atletas. “Por conta dessas dificuldades do futebol profissional, muito atletas param de jogar e vão somente para o amador, pois realmente pagam, muitas vezes mais do que no profissional”, completou Wellington.

Após o Campeonato Acreano em 2018, o volante ficou desempregado e no futebol amador conseguiu um dinheiro para se manter, até assinar um novo contrato. “Dependendo do final de semana dá para tirar uns R$ 250 reais, até mais. Eu mesmo já joguei em times que pagaram R$ 130 por jogo, aí se você jogar no dia seguinte pega mais um pouco. Jogando todos os finais de semana dava para tirar cerca de R$ 200 reais”, finalizou o jogador.

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Wellington França com a camisa do Humaitá-AC (Foto: Arquivo pessoal/Wellington França)

 

Nos terrões do futebol amador, a maioria dos atletas, aqueles que não recebem, buscam o melhor desempenho para levar o seu time de amigos ou do bairro à conquista de títulos. Mas é justamente essa competitividade que faz com que as equipes busquem reforços, e assim consigam um melhor rendimento em campo. Afinal, como afirma Luiz Henrique Toledo em seu livro “No país do futebol” o esporte é o que mais mobiliza os brasileiros, uma verdadeira “paixão nacional”. Talvez pelo fato de não excluir ninguém pela classe social, já que a meia pode virar uma bola, um par de chinelos um gol e qualquer espaço se torne um campo. E é essa paixão pelo esporte sua gratificação.

Wesley Contiero (955 Posts)

Jornalista, 24 anos, natural de Lins, Interior de São Paulo.


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