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Especial: a realidade do futebol brasileiro

Fama e anonimato: vivendo as duas faces da carreira

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Foto: Arquivo pessoal/Osmar Cambalhota

Como atleta, Osmar Cambalhota viveu os dois lados da moeda, passando desde as maiores dificuldades no mundo da bola até a glória dos títulos e grandes equipes

 Osmar Aparecido de Azevedo, ou simplesmente Osmar Cambalhota, é um jogador profissional de futebol natural de Marília, interior de São Paulo, e que já viveu todas as fases da sua profissão: desde um início complicado, passagens por equipes em crise, até as conquistas de grandes títulos e contratos com equipes renomadas.

A carreira do atacante teve início no Rio Branco de Americana, aos 16 anos de idade, quando Osmar fez a base e se profissionalizou no clube.

“Todo começo é complicado e difícil, ainda mais na minha época, que não se tinha tanta tecnologia como se tem hoje. O maior problema era falar com a família. Eu lembro que me comunicava por carta e tinha um telefone da patroa na fazendo onde eu morava que podia ligar uma vez por semana. O início foi bem complicado”, relembra o jogador que atualmente tem 38 anos.

“Naquele tempo já tinha uns esquemas de empresários. Eu mesmo não tinha, mas isso já existia. Chegaram atacantes do diretor e na época tinha o Anaílson e o Sandro Hiroshi já naquele time também, dois jogadores da Seleção sub-17, então eu que ia ser mandado embora. Foi uma semana muito complicada, mas aí participei de um coletivo, entrei no segundo tempo e fiz os dois gols. O presidente falou que não iria me mandar embora, mas o diretor mesmo assim queria me tirar. Aí teve um jogo no Junior contra o Corinthians, e o treinador pediu para me levar e eu fui. No segundo tempo entrei e fiz os dois gols da nossa vitória por 2 a 0. Foi aí que realmente me deixaram no time, assinei contrato e ainda fui o artilheiro com 18 gols”, conta Osmar Cambalhota.

Em 2000, Osmar foi emprestado para a equipe do Mogi das Cruzes, onde disputou o Campeonato Paulista Série A-3, e de lá foi para o União São João.

“Naquela época ainda não tinha a lei Pelé, que prejudicou muito os times pequenos. Foi lá que me destaquei e em 2004 fui para o Santo André, onde conquistamos a Copa do Brasil contra o Flamengo e teve toda aquela repercussão”.

A conquista da Copa do Brasil

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Acima, equipe do Santo André campeã da Copa do Brasil 2004, e abaixo Osmar comemorando na final diante do Flamengo (Foto: Arquivo pessoal/Osmar Cambalhota)

 

Considerado uma equipe pequena, o Santo André surpreendeu todo o Brasil em 2004. Com um ataque comandado por Osmar Cambalhota, a equipe do ABC Paulista eliminou grandes clubes, como Atlético-MG, Guarani, Palmeiras e o finalista, Flamengo.

“Os campeonatos são em duas metades. Por exemplo, os pequenos lutando para não cair e os grandes para ser campeão. Quando começou a Copa do Brasil entramos como franco atirador, íamos ver até onde íamos chegar. Só passamos a acreditar mesmo quando empatamos e tiramos o Palmeiras, então vimos que teríamos condições, não de ser campeão, mas de chegar”, conta Osmar. “Contra o Palmeiras estava 4 a 4 e nós querendo ir para cima. Quem falou para a gente que resultado era nosso foi o juiz. Todo mundo falando vamos segurar, vamos segurar, ai acabou o jogo e foi uma alegria que parecia que tínhamos sido campeão ali (risos)”, completa o jogador, que anotou um dos gols no jogo de ida, e outro no jogo de volta.

Após eliminar o Palmeiras, o Santo André enfrentou o XV de Novembro-RS na semifinal, equipe comandada pelo treinador Mano Menezes. No jogo de ida, a equipe de Osmar acabou sendo derrotada por 4 a 3, em casa. Para o jogo da volta, uma motivação extra fez com que os jogadores entrassem com sangue nos olhos. “Na semana que íamos jogar contra eles lá, ficamos sabendo que eles estavam discutindo o bicho, pois já contavam com a vitória. E lá ganhamos de 3 a 1, de virada. Passamos para a final e pensamos, “e agora? ”. Era o Flamengo no Maracanã”.

Diante da equipe de maior torcida no Brasil, Osmar relembra que o sentimento era de “dever cumprido”, e que o que viesse era lucro para o seu time.

No duelo de ida, empate por 2 a 2, com direito a um gol de Osmar Cambalhota. Na volta, um Maracanã lotado esperava para ver mais um título do Flamengo.

“Pensamos: “Pô, agora é no Maracanã, 102 mil pessoas, a nossa parte está feita”. A festa deles estava pronta, a Ivete (Sangalo) estava lá e tudo. Mas deu tudo certo, fizemos o primeiro gol, puxei o contra-ataque no segundo, e deu tudo certo. Quando acabou não tínhamos a noção do que tinha acontecido, foi ali que mudou a vida de muita gente, vários foram para times grandes, eu inclusive fui para o Palmeiras. Jamais vamos esquecer, nem o torcedor do Flamengo”, relembrou.

 Palmeiras: gols, título, empréstimo e lesão

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Osmar (esquerda) em foto com Edmundo, ídolo do Verdão (Foto: Arquivo pessoal/Osmar Cambalhota)

Após a conquista da Copa do Brasil pelo Santo André, Osmar Cambalhota foi para um dos gigantes do futebol brasileiro, a Sociedade Esportiva Palmeiras.

“Era totalmente diferente do que eu vivi, tanto é que cheguei após o Vágner Love ser vendido, e o Palmeiras estava em 14º lugar (Brasileirão), tinha jogadores como Thiago Gentil, Muñoz. Cheguei quietinho, sempre trabalhando, fiz dois gols na estreia contra o Fluminense, fiz gol no segundo jogo também e fui pegando confiança, mas eu não me empolgava tanto, pois sabia que uma hora ia acabar”.

Em 2005, Osmar começou a sua saga de empréstimos, e passou por Grêmio, Morella do México, Oita Trinita do Japão e Fortaleza.

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Atacante Osmar com a camisa do Grêmio (Foto: Arquivo pessoal/Osmar Cambalhota)

 

Em 2007, no retorno ao Palmeiras, o jogador se firmou e teve destaque na equipe que disputava o Campeonato Estadual. Porém, logo no início do Campeonato Brasileiro, Osmar teve uma grave lesão no joelho e perdeu o restante da temporada.

“Quando torci o joelho foi um momento em que coloquei muito em dúvida como eu voltaria. Tive momentos bons e ruins na carreira, esse foi um dos ruins”, relembra o jogador.

Em 2008, Osmar retornou e fez parte da equipe que conquistou o Campeonato Paulista. Na mesma temporada, o jogador ainda foi emprestado ao Ipatinga e ao Vitória, e em 2009 voltou para o Verdão, mas sem muitas oportunidades.

De volta ao interior

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Osmar com a camisa do Marília (Foto: Arquivo pessoal/Osmar Cambalhota)

 

Saindo do Palmeiras, onde fez 66 jogos e anotou 30 gols, Osmar rodou por diversos clubes do interior de São Paulo: o União São João por mais três vezes (2010, 2011 e 2013); Guaratinguetá (2010), Marília também por três vezes (2011, 2012 e 2017); Inter de Limeira (2014) e o Mogi Mirim (2018).

De volta as equipes consideradas menores, Osmar voltou a enfrentar problemas que milhares de atletas sofrem no país: como a falta de estrutura, problemas com a falta de jogos e até mesmo o desemprego.

“Tem gente que não sabe o que é o futebol e pensa que ganhamos milhões. Muita gente vive de ilusão no futebol. Se você for trabalhar em outro lugar, você ganha até mais que muitos jogadores de futebol. Eu ainda fui um privilegiado, dos times que joguei em apenas dois não recebi”, diz Osmar.

“Para você vê que o futebol no Brasil também é ilusão, se um atleta for comprar qualquer coisa, as pessoas já pensam: “Hum, é jogador, tem dinheiro”. Mas isso é pelo fato de que as pessoas pegam uma imagem que não é a realidade, quem ganha milhões são os caras da Europa, de times grandes. Mas se você pegar a maioria dos pais de família que disputam uma Série A-3, não tem nem casa para morar”, completa Osmar.

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Osmar atuando pelo Mogi Mirim na temporada atual (Foto: Arquivo pessoal/Osmar Cambalhota)

O drama descrito pelo atacante é a realidade de diversos atletas no país. De 722 clubes filiados as federações, apenas 60 tem calendário durante o ano todo com competições de nível nacional, o que gera um grande número de desemprego na profissão.

Aos 38 anos, Osmar Cambalhota é mais um dos atletas sem clube. O jogador disputou o Campeonato Paulista Série A-3 e o Campeonato Brasileiro Série D pelo Mogi Mirim, e mesmo com duas competições no calendário, em julho a equipe já não tinha mais jogos para a temporada.

“Seria legal (reformulação no calendário), desde que os clubes tenham estrutura para pagar realmente os salários. Não adianta ter calendário e você trabalhar 3, 4 meses sem receber. Dizem que jogador é mercenário, mas ele é como qualquer um que precisa receber o seu dinheiro. E quando pagam, os times acham que é um prêmio, mas não, salário é obrigação, são pais de família. Jogar bola é gostoso? É de final de semana, que você joga, toma uma cerveja, um guaraná. Mas quando é compromisso é bem diferente, é um trabalhado como qualquer um. Para nós (jogadores) não tem feriado, dia santo, aniversário dos filhos. E em time grande ainda quando perde não pode nem sair na rua. Imagina onde você andar alguém te criticar. Os torcedores do seu time e rivais vão te encher o saco. Futebol é o único esporte que você não pode perder. Os outros você pode participar, mas no futebol não, pois as críticas, e até agressões são grandes”.

Em fase final da carreira como jogador, Osmar ainda tem lenha para queimar, e busca uma equipe para a próxima temporada.

“O meu plano para o futuro é arrumar uma equipe que dê suporte para trabalhar. Hoje o maior problema para quem tem idade avançada é ter uma oportunidade, pois pensam para que vou servir? Mas é melhor você ser um guerreiro no jardim do que um jardineiro em uma guerra. Podemos ajudar, se pegamos um garoto, sabemos finalizar, cortar os caminhos, então posso orientar. Se vejo o garoto fazendo errado, ajudo, ensino. Tem hora que não é força, é o jeito. Então podemos ajudar até mesmo fora de campo”, finaliza Osmar Cambalhota.

Wesley Contiero (953 Posts)

Jornalista, 24 anos, natural de Lins, Interior de São Paulo.


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