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Análise: as categorias de base funcionam no Brasil?

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Com participações de Rodrigo Bueno, Luiz Carlos Largo, Ricardo Resende e Gilmar Popoca, analisamos a situação das categorias de base no Brasil

É inegável que o futuro do Brasil está em seus jovens, seja no mercado de trabalho, política ou esporte. No futebol isso não é diferente, o futuro de nossos campeonatos e seleção estão nos pés deles. Mas a pergunta que fica é a seguinte: o Brasil sabe formar jogadores ou eles simplesmente são talentosos?

Juntamos diversos apaixonados pelo futebol para discutir sobre o assunto, como Gilmar Popoca, treinador da equipe sub-20 do Flamengo; Ricardo Resende, treinador da equipe sub-20 do Atlético-MG; Rodrigo Bueno, comentarista da FOX Sports; Luiz Carlos Largo, narrador da ESPN, e Pedro Chagas, colunista do nosso portal.

Primeiramente, precisamos destrinchar alguns pontos. A categoria de base é devidamente valorizada no Brasil?

Para Rodrigo Bueno, comentarista da Fox, o Brasil é um dos melhores formadores do mundo. Tanto em jogadores, como sempre foi, e, agora também em treinadores.

“Temos, no país, alguns dos melhores formadores de jogadores do futebol mundial, seja em termos de clubes mesmo (como São Paulo, Santos, Inter e Fluminense, por exemplo), seja em termos de profissionais. As bases dos grandes clubes têm gerado treinadores e outros profissionais de bom nível para os times principais. Não é à toa que alguns clubes grandes hoje no Brasil são comandados por técnicos que fizeram bons trabalhos na base”, frisou Rodrigo Bueno.

Como bem lembrou Rodrigo, recentemente, tivemos uma ‘febre’ de jovens treinadores nos clubes nacionais e, em 2017, alguns deles foram campeões estaduais, o que os ajudam a se firmarem no cenário futebolístico.

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Carille foi campeão paulista em seu primeiro ano como treinador (Foto: Rodrigo Gazzanel / Ag. Corinthians)

Fábio Carille, Zé Ricardo, Jair Ventura e Roger Machado são só alguns da enorme lista. Cada vez mais jovens vão tendo oportunidades no profissional e isso também se mostra realidade nos jogadores, já que com a maioria dos clubes em crise, os atletas da base recebem mais chances no time titular.

“Creio que as divisões de base do Brasil estão cada vez mais valorizadas. Com a crise econômica do país, muitos times tiveram que recorrer mais a seus jovens jogadores. E muitos clubes importantes do Brasil dependem da venda de atletas para fecharem no azul no fim do ano. Hoje o calendário da base no Brasil é vasto. Há muitos torneios importantes, e quase todos têm boa estrutura, contam com transmissão de TV, revelam bons jogadores. Não é mais “só” Copa São Paulo e torneio estadual como no passado. A própria CBF investiu mais na área, assumindo Brasileiro e Copa do Brasil para juniores e juvenis”, completou Rodrigo Bueno, em entrevista exclusiva.

Essa maior participação dos jovens talentos passa pela vontade do clube e confederação. Entretanto, quais clubes são referências em dar oportunidades às suas jóias no profissional? Pedro Chagas, colunista e editor do Esportes Mais, citou alguns e, para ele, o Santos é o principal revelador nacional.

“Acho que todo mundo elogia muito o trabalho do Santos, e com razão. O Santos passou muito tempo durante o período da fila contratando grandes nomes: Viola, Dodô, Rincón, Carlos Germano… e sofria pra ganhar campeonatos. Quando finalmente resolveu investir na base, treinada, primeiramente, pelo Pelé, o Santos começou a ganhar taças no profissional. Aí, jogadores como Diego, Robinho, Elano, Alex e outros foram revelados numa fornada que produziu o time campeão brasileiro de 2002 e 2004”, afirmou Pedro Chagas.

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Recentemente o Santos vem se destacando por revelar grandes jogadores (Foto: Divulgação / Santos)

Além do Santos, Chagas cita Fluminense, Atlético-PR, Figueirense, Cruzeiro e São Paulo como bons formadores de atletas. Porém, o colunista do E+ também deu uma alfinetada na CBF, que vem evoluindo nesse aspecto, mas ainda negligencia a formação dos jovens como prioridade.

“Desde então, alguns clubes voltaram a perceber que a base é uma excelente fonte de talentos. Aí, podemos citar o Fluminense, o Atlético-PR, o Figueirense, o próprio São Paulo que tem uma estrutura impressionante de base, assim como o Cruzeiro, o que é muito importante. Mas para esse trabalho crescer, é preciso uma atenção maior da CBF. A CBF tem acompanhado mais os campeonatos de juniores, tem feito trabalhos com as seleções de base, mas não é o suficiente. Talvez, uma forma de trabalhar melhor nossos jovens talentos seja um trabalho parecido com o da Federação Alemã de Futebol, que criou escolinhas espalhadas pelo país, para trabalhar jovens atletas e repassá-los para os clubes, o que facilita muito encontrar talentos longe das mãos dos empresários mal intencionados, que visam lucrar as custas do talento alheio”, completou o colunista do E+.

Todavia, apenas trabalhar bem com os jogadores nas categorias inferiores não é suficiente. As equipes precisam dar a devida atenção a eles no profissional, dando confiança, chances em campo e blindando o atleta, são condições essenciais para o sucesso.

“Eu acho que seria muito mais interessante o clube formar jogadores e aproveitá-los. Mas a necessidade financeira as vezes leva o clube a se desfazer de uma futura estrela e também em outra situação muitas vezes é vontade do garoto e de seu empresário que isso ocorra, sair do país”, opinou Luiz Carlos Largo.

Casos como o de Vinícius Jr. vão sendo cada vez mais frequentes em nossa realidade. Como citou o narrador da ESPN, Luiz Carlos Largo, muitos clubes passam por crises financeiras e esse desespero praticamente os obrigam a se desfazerem dos jovens.

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Jovem Vinícius Jr. já foi vendido ao Real Madrid por 45 milhões de Euros (Foto: Gilvan de Souza / Flamengo)

Entretanto, as equipes também são culpadas por isso. Mesmo que vendam suas promessas por necessidades financeiras, esses mesmos times costumam trazer um grande número de jogadores com idade avançada por caminhões de dinheiro. Isso faz com que o meninos da base não tenham as devidas oportunidades no time titular.

Elencos caros atraem grandes jogadores, porém tiram espaços para os atletas mais jovens. Atualmente, times como o Atlético-MG, Palmeiras e Flamengo criam esse problema interno por terem muitas estrelas em seu elenco. Mas, para Ricardo Resende, treinador da equipe sub-20 do Galo, essa disputa apenas aumenta a vontade dos meninos de jogarem.

“Nos últimos anos, o Atlético, no elenco profissional, tem tido atletas de altíssimo nível. Recentemente, Ronaldinho, Tardelli… Atualmente Fred, Robinho, entre outros. Então realmente aumenta ainda mais a responsabilidade na formação dos atletas. Porque o nível tem que ser de excelência para eles poderem fazer parte desse elenco. E atualmente estamos conseguindo fazer isso. O Bernard conseguiu jogar na equipe profissional, foi protagonista no título da Libertadores. O Jemerson também, no título da Copa do Brasil. Atualmente temos o Gabriel jogando, que foi formado na base desde os doze anos de idade”, disse Ricardo Resende.

Apesar dessa desfeita precoce de talentos, a injeção de dinheiro estrangeiro ajudou os clubes a terem melhores estruturas. Hoje, diversos grandes times têm ótimas infraestruturas para a equipe profissional e as categorias de base.

Esse é um dos aspectos mais importantes desse tema. Com um bom preparo, o atleta tem tudo para se tornar em um grande jogador. Somando isso com o talento natural do brasileiro, as expectativas com nossos times, campeonatos e seleção só crescem.

“O nível tem crescido muito em todos os aspectos. Temos uma condição de trabalho excelente, e isso favorece. Buscamos o talento, temos profissionais mais qualificados, e hoje o atleta recebe uma grande quantidade de informações tanto na parte técnica, como na tática. A grande arma é evoluirmos a parte técnica aliada ao entendimento do jogo. Com isso, a possibilidade de revelar e aproveitar o atleta pelo profissional aumentam muito”, declarou Gilmar Popoca, treinador da equipe sub-20 do Flamengo.

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Gilmar Popoca é ex-jogador do Flamengo e atualmente comanda a equipe sub-20 do Rubro-Negro (Foto: Reprodução)

“Hoje em dia muitos clubes brasileiros têm ótima estrutura na base ou são grandes formadores de jogadores. São Paulo, Corinthians e Flamengo, são ótimos exemplos”, completou Luiz Carlos Largo.

“A estrutura física é de fundamental importância no processo de formação dos jovens atletas. Os clubes brasileiros estão atentos nesse processo. Percebe-se CT’s de altíssimo nível em toda sua estrutura física. Campos de alta qualidade, academia, fisioterapia e refeitórios. E o Atlético que recentemente foi eleito o melhor CT do Brasil, está ampliando ainda mais essa estrutura, a expectativa é de até o final do ano, ter mais três novos campos. […] Então, sem dúvida nenhuma, a estrutura física é fundamental, porque com uma boa alimentação, campos de qualidade, boa fisioterapia, são fundamentais para conseguir fazer um trabalho de excelência”, disse Ricardo Resende, técnico do Galo.

Apesar de todos defeitos passados, vemos o futuro do futebol brasileiro com bons olhos. Bons treinadores estão sendo revelados, o trato com os jovens vem sendo melhor e o cuidado da CBF vem sendo mais delicado.

É claro que o futuro do nosso país, em qualquer aspecto, está nos mais novos. Para Popoca, o cuidado com a base vem se fortalecendo aos poucos. Bom para nós.

“Acho que já houve um período em que os clubes grandes reduziram a valorização das categorias de base. Mas, com um mercado crescente, os clubes voltaram a perceber que o maior custo benefício seria melhorar o investimento nessas categorias”, frisou Gilmar Popoca, que também é ex-jogador do Flamengo.

Além da formação, a CBF também deve fazer vista grossa com talentos que jogam no exterior, já que eles sofrem um grande assédio de outras confederações e por causa disso perdemos muitos talentos para outras seleções. Thiago Motta, Thiago Alcântara e Diego Costa são apenas três de dezenas de casos.

O Brasil sempre teve os jogadores mais habilidosos do mundo, mas agora precisa focar em outros pontos, como em formar atletas com noções físicas e táticas, além de ter preparadores físicos, treinadores, gestores e gerenciadores competentes.

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Ricardo Resende é o treinador do time sub-20 do Atlético-MG (Foto: Divulgação / Atlético-MG)

Além de tudo, precisamos de leis mais rígidas para blindarem nossas jóias. Após o 7 a 1 sofrido diante da Alemanha, na Copa do Mundo de 2014, a formação de atletas sofreu muitas críticas. Todavia, Ricardo Resende vê isso como exagero e confia no trabalho realizado na seleção canarinho.

“O Brasil é um celeiro na formação de atletas. Acredito que hoje as pessoas que trabalham no processo de formação são muito bem preparadas. Tanto treinadores, quanto gestores. E quando teve o 7 a 1, se preocuparam muito com a questão de formação. E depois que o Tite chegou na Seleção, [ele] conseguiu organizar [o time]. [A torcida] Viu que o Brasil tem vários jovens talentos. Percebe-se que temos vários jogadores que são protagonistas em seus clubes. Casos de Neymar, no Barcelona, Coutinho, no Liverpool, o Gabriel Jesus que recentemente foi revelado no Brasil e hoje é um jogador muito importante no Manchester City, o Marquinhos no Paris Saint-German, então acredito que o Brasil tem ótimos jogadores e muitos jogadores pra ainda darem alegria para nossa torcida. Então acredito que o processo de formação é muito bom, mas, claro que sempre tem coisas pra poder evoluir”, destaca Ricardo Resende.

Após toda essa análise, podemos concluir algumas coisas: a formação de atletas no Brasil é falha, mas vem em uma crescente evolução. Vemos isso acontecer nas seleções de base e com a constante explosão de talentos no Brasileirão. Além disso, é plausível frisar que as estruturas físicas são pontos a serem melhorados, porém, também estão em uma reta crescente.

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