Complexo de vira-latas nos dias atuais: A expressão ainda cabe?

Nelson Rodrigues cunhou a expressão Complexo de Vira-latas
Nelson Rodrigues cunhou a expressão Complexo de Vira-latas – ChatGPT

Em 1958, o consagrado jornalista Nelson Rodrigues escreveu a célebre crônica intitulada: Complexo de vira-latas. Segundo o autor, esta expressão se refere a inferioridade que o brasileiro se coloca voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores, e sobretudo, no futebol.

Porém, será que essa expressão é usual nos dias atuais? Vejamos o quanto ela ainda pode fazer sentido, ou não, se analisarmos o atual contexto da nossa seleção e da sociedade!

Complexo de vira-latas na época faz sentido: é profético!

Em sua própria crônica, Nelson Rodrigues enfatiza a descrença do povo brasileiro na seleção, principalmente que vínhamos de uma sofrida derrota na Copa do Mundo de 1950, em casa, diante do Uruguai. Oito anos se passaram e mesmo assim a ferida ainda doía no brasileiro.

Então, o torcedor da seleção canarinho já não nutria esperanças de um sucesso do escrete e pior, enxergava tudo que os gringos faziam como algo esplêndido. Eis que a expressão complexo de vira-latas surgiu como um tapa na cara do brasileiro.

Porém, toda a descrença era compreensível, por conta do contexto da época: O Brasil jamais havia conquistado uma Copa do Mundo e vinha de um sofrida perda de título em 1950 e uma participação ruim em 1954, com eliminação e futebol apagado diante da Hungria.

Por outro lado, a expressão também servia e muito. Até porque, a seleção brasileira contava com grandes talentos na época, como Ademir, Didi, Leônidas da Silva, Jair e Zizinho. Notem que nem o nome de Pelé foi citado, pois apesar de mostrar traços de gênio, ainda não era o rei do futebol que conhecemos. Em suma, nossos craques batiam de frente com qual craque do futebol mundial.

A expressão serve para os dias atuais?

A expressão complexo de vira-latas serve para os dias atuais em diversos contextos, principalmente se analisarmos os aspectos de sociedade. Mas este não é o foco, mas sim o futebol.

Hoje, a seleção brasileira conta com bons talentos individuais, como Vinicius Junior, Raphinha, Casemiro, Marquinhos, Alisson e Gabriel Magalhães. Sem contar que Luiz Henrique, Rayan, e sobretudo Endrick, são jovens promessas que podem colher frutos com o escrete canarinho. Neymar continua sendo a grande estrela, mas num mundo movido a redes sociais, sua vida se tornou um grande espetáculo, em que ele mesmo faz questão de atuar.

Mas, estes talentos individuais, que já fizeram sucesso com suas equipes, não tiveram o mesmo brilho na seleção brasileira e sequer uma identificação capaz de criar um elo com o torcedor. Até porque, estes jogadores saíram cedo do Brasil e não tiveram tempo de deixar sua marca na memória dos torcedores.

Para piorar, as seleções que antes eram considerada nanicas na história do futebol, começaram a se tornar mais competitivas, talvez não para conquistar uma taça, mas sim para incomodar. Ainda mais que contra o Brasil, qualquer sopro se tornou incômodo. Vide o que Marrocos fez diante do Brasil, dominando a partida, assim como a seleção marroquina fosse a seleção brasileira de um passado distante.

O jejum de 24 anos sem ganhar uma Copa, somado ao 7 a 1 para a Alemanha em 2014, soam como o Maracanaço de 1950 e a falta de títulos do Brasil até 1958. Portanto, a expressão pode até ter a sua serventia quando um ou outro diminuem ainda mais a seleção e elogiam o feito mínimo de qualquer estrangeiro. Porém, é cada vez mais difícil defende-lá no futebol, ainda mais quando se trata da seleção atual.

Dito isto, onde a seleção pode chegar na Copa do Mundo de 2026?

Sem querer ser algum vira-lata, embora os caramelos sejam um patrimônio simpático do Brasil, é compreensível enxergar o Brasil com raras chances de títulos. Não como uma atitude negativa, usada como disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado, como disse Nelson Rodrigues em sua crônica em 1958, mas sim com a razão.

Embora a história do Brasil não permita planejamento e apenas remendos de sorte, dessa vez parece que a sorte acabou. O talento nato que era referência para o mundo parece estar em seu esgotamento.

As ruas já não são mais atrativas para se pisar com os pés descalços como antes, para que seus chinelos formem o tão sonhado gol. A fome de driblar já não é mais tão apetitosa quanto o ato de controlar jogadores mecânicos através de uma tela. A obediência tática se sobrepõe à rebeldia. Os ídolos das crianças já não são mais Pelé, Ronaldo ou Ronaldinho, mas sim Cristiano Ronaldo, Messi e Mbappé. Tudo por nossa própria culpa.

Este texto trata-se de uma crônica que expõe exclusivamente a opinião do autor.

Compartilhe

Deixe um comentário

Publicidade
Relacionados
Catar
Catar faz feio e leva goleada histórica do Canadá
Turquia Paraguai
Turquia x Paraguai: Copa pode ter primeiro eliminado
Brasil x Haiti
Brasil x Haiti: Seleção Brasileira busca primeira vitória na Copa do Mundo 2026
Escócia x Marrocos
Escócia x Marrocos: escalações, horário e onde assistir
Categorias
Publicidade

Basquete

Beach Soccer

Fórmula 1

Futebol

Futsal

Games

Especiais

NFL

Seleção

Tênis

UFC

Vôlei